Esta é minha conclusão final: Tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos. Isso é o resumo do que o homem deve fazer. (Eclesiastes 12:13 NBV-P)
Imagine se você pudesse ficar diante da pessoa mais sábia que existe hoje e ele te concedesse fazer qualquer pergunta e você teria a certeza de que a resposta seria verdadeira e satisfatória. Imagine uma pessoa sábia a ponto de poder resolver qualquer um dos grandes dilemas que assolam o ser humano desde que ele existe e, então, você está diante dessa pessoa e pode perguntar-lhe o que quiser.
O que você perguntaria?
Quais são as questões que realmente importam ser respondidas?
Bem, acredito que cada pessoa tem um questionamento que julga crucial para todos o seres humanos e gostaria de apresentar essa pergunta a alguém que soubesse a resposta exata.
Também acredito que todas as respostas que fossem fornecidas impactariam completamente a vida dessa pessoa, que passaria a pensar e agir de forma diferente depois que obtivesse tal conhecimento. Se todas as pessoas do mundo tivessem tal oportunidade, acredito que o mundo todo seria transformado completamente. Afinal, não são as questões que movem tudo?
Mas o ponto aqui é que Salomão, conforme o relato histórico, foi um homem muito admirado por todos que o conheceram pela sua sabedoria. Era eloquente e rico. Prosperava em tudo o que se dedicava e nunca foi privado de nenhum prazer que uma pessoa possa experimentar. Teve sucesso, riqueza, fama, amores, herdeiros... Salomão é talvez o maior personagem bíblico que retrata uma pessoa bem sucedida e abastada. No final de sua mais profunda reflexão, no fim da vida, depois de desfrutar tudo o que há disponível no mundo, de ver tudo o que existe e se dedicar a entender todas as coisas e as razões de todas as coisas, ele conclui algo, no mínimo estranho e inesperado.
Paul Washer, renomado e afamado servo do Senhor, ensina que os livros de Provérbios e de Eclesiastes foram escritos por uma pessoa que talvez fosse a única capaz de revelar alguns princípios gerais que se aplicam à vida de qualquer pessoa. Ele comenta que as palavras de Salomão, a quem se atribui a autoria do texto, são como constatações de alguém que ficou sentado num lugar por cem anos observando tudo o que acontecia na humanidade e analisando cada comportamento, cada ação e reação das pessoas.
Imagino que depois de ter qualquer mulher que desejasse, comer qualquer comida que existisse, ter qualquer bem material que alguém pudesse possuir e alcançar um nível de conhecimento e informação mais elevados do que a grande maioria das pessoas mais cultas e sábias do mundo, dificilmente concluiríamos o que ele formulou.
O ilustre e respeitado John Wesley, nos seus comentários sobre o verso 13, do capítulo 12, do livro de Eclesiastes, escreveu:
"Tema a Deus – Que é colocado aqui, por toda a adoração interna a Deus, reverência, amor e confiança e dedicação de coração para servi-lo e agradá-lo."
Noutro texto, Salomão diz que "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (Provérbios 9:10).
Mas, afinal de contas, o que é esse tal temor?
Acredito que muitos já ouviram ou leram a esse respeito e é muito comum pregadores e autores se referirem a esse termo dando a conotação de que pode ser muito importante sentirmos medo. Temor como algo que nos faça pensar muito a respeito de castigo eterno.
Hoje, pensando a respeito, e conversando com Deus, o Espírito Santo me revelou algo que talvez não seja comum, mas que está muito relacionado ao que John Wesley escreveu.
Não consigo imaginar como um filho pode ter medo do seu próprio pai. Tenho certeza que muitos filhos estremecem com medo do que o pai pode lhes impor. Não tenho dúvidas de que todos os que sofreram castigos físicos realmente temem (sentem medo) levar uma nova surra do seu pai. Mesmo assim, o medo não é do pai. O pavor se refere àquilo que o pai é capaz de fazer.
Por outro lado, não há uma hipótese normal de imaginar que um pai vai surrar o seu filho sem absolutamente nenhuma causa. O que se constata de maneira comum é que a violência sofrida é resultado de uma desobediência, ou afronta. Menos comum, mas muito frequente é também a violência praticada por fatores de desequilíbrio ou desajuste psíquicos/culturais, como uso de drogas, enfermidades emocionais não identificadas, reconhecidas e tratadas, entre tantas outras possíveis causas.
A questão é que a relação pai e filho / filho e pai é estabelecida, independente de qualquer variável externa, como um vínculo de dependência, no qual o dependente (filho) tem no provedor (pai) a sua principal referência, seja como benfeitor ou como malfeitor. Inclusive nos casos de ausência, que, por si mesma, também se torna uma referência.
Natural que filhos que são repetidamente espancados acabem por reproduzir tal comportamento e pais excessivamente permissivos se deparem com filhos imaturos e despreparados para desenvolver autonomia ou encarar as dificuldades da vida.
Em síntese, o que procuro demonstrar, que Deus colocou no meu coração sobre o termo TEMOR, não se refere a medo.
O temor mencionado por Salomão, que é o resumo último de tudo o que o homem precisa para estar bem, vai muito além de um pavor de ser castigado ou condenado.
Nenhum criminoso deixa de cometer o crime porque tem medo da punição. Criminosos são movidos exatamente pela mesma convicção a que me refiro. Não é a impunidade ou a sensação de impunidade a causa primeira do seu comportamento. Criminosos simplesmente escolhem, decidem e pronto.
Quando cometemos qualquer infração, falta ou mesmo um crime, não é a falta de punição que nos move, mas a certeza de que temos que praticar aquele ato. É algo profundo e íntimo. É uma decisão tão pessoal quanto a de não praticar nenhuma conduta irregular ou ilegal.
Entendo, portanto, que Salomão está a nos mostrar que o fim de tudo, a conclusão final de tudo, é temer a Deus no sentido de sentir um "frio na barriga" só de pensar na possibilidade de ficar longe Dele. É um amor e um apego tão forte, tão incontrolável que falta o ar. O temor do Senhor que apreendo do que Salomão escreve está muito mais relacionado ao apego afetivo do que ao medo.
Quando viajo percebo claramente o desânimo, o desalento que toma conta da casa dias antes. Sempre que foi necessário me ausentar, o desconforto emocional de todos em casa era tão visível que chegava a ser dolorido, para meu filho, para a minha filha e, sobretudo, para mim.
Temer a Deus não é ter medo da punição a qual Ele pode me submeter, mas estar tão ligado a apegado a Ele que a simples cogitação de afastamento, ainda que por poucos minutos, causa sofrimento e angústia. É sentir algo tão forte e poderoso com a presença Dele, um amor tão grande e inexplicável, que tudo o que dá para desejar é continuar sempre ali, grudado, juntinho...
Temer a Deus não é simplesmente obedecer e fazer o que Ele manda, mas, ao fazer isso, atraí-Lo, tocá-Lo, senti-Lo!
Quando entramos numa relação de intimidade com Deus, naturalmente, muitas coisas antes incompreensíveis se desabrocham na nossa mente e passamos a agir com um sentido, uma causa, um porquê que vai além, muito além, de simples roteiros litúrgicos ou dogmas religiosos.
Temer a Deus não é deixar de mentir, de beber, de roubar, de se prostituir ou qualquer prática condenável e má. É se envolver tanto com Ele que somos impelidos a, além de abandonar tais práticas, fazer algo no sentido de ajudar quem ainda não as deixou. Cuidar e ir em busca de pessoas que ainda não desfrutam dessa sublime condição.
Quando Jesus chamou Pedro para segui-lo, disse que o faria pescador de homens. Espalhar boas novas, pregar o arrependimento, o amor, o perdão e a salvação eterna não tem absolutamente nada a ver com religião. É algo muito mais abrangente, muito mais poderoso.
Se eu te falar que tenho as respostas para qualquer pergunta, estarei mentindo. Se eu disser que com Cristo sua vida será fácil e todos os seus problemas vão desaparecer, e você vai ficar rico e ter sucesso, se afaste de mim.
Mas eu te afirmo, por experiência própria, sem nenhuma dúvida ou incerteza, depois de experimentar muito do que a vida oferece, que não há nada que se compare a estar com Deus e receber diretamente Dele, afago nos dias difíceis; força nas situações desafiadoras; inspiração diante da realidade injusta e triste; alegria em meio à dor e à provação; e alternativa diante de um aparente "beco sem saída".
O temor a Deus, a busca pela Sua santa presença e pela Sua aprovação, o desejo ardente de ficar perto Dele, sentir a Sua mão segurando a minha, a Sua sombra me aliviando e o Seu abraço me envolvendo, me conduzem a um estado sobrenatural de plenitude e conhecimento.
Mas não o conhecimento que tanto se valoriza por aí, mas o mais difícil e importante de todos, o autoconhecimento, a clara identificação das minhas próprias limitações, dos meus próprios defeitos e das minhas qualidades, das minhas conquistas e virtudes. Temer a Deus é conseguir olhar um espelho que revela com exatidão e riqueza de detalhes aquilo que jamais seremos capazes de enxergar com os olhos da ciência, da religião, da filosofia, da política ou de qualquer outra área do saber humano.
Conhecer "a Lei", estudar a Palavra e os mandamentos, são apenas algumas das maneiras, a metodologia, o caminho para essa autoconstrução, mas a revelação profunda e indesviável de nós mesmos reside numa convivência, genuína e pura, pessoal e intransferível, sólida e permanente, com o Pai.
Conversar com Ele, estar com Ele, pensar Nele, desejar ouvi-Lo, tentar identificá-lo em todas as circunstâncias, atribuindo a Ele todo o louvor, toda a honra, declarando que Ele é Deus, o Criador de tudo, Soberano e Excelso. Isso é temor!
Esse temor é o que nos faz sair de um estado no qual somos desconhecidos de nós mesmos e faz com que se nos desnude aos nossos próprios olhos quem realmente somos...
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