Esses dias o Senhor falou comigo a respeito do episódio no qual ele foi entregue por Judas.
Está registrado nos quatro evangelhos (Mt 26.51; Mc 14.47; Lc 22.50 e Jo 18.10)
Interessante que nunca tinha me atentado para o detalhe.
Como teria se sentido aquele homem que tivera sua orelha cortada por Pedro?
Que sensações e pensamentos se passaram em sua cabeça quando o Senhor Jesus restaurou-lhe a orelha?
Como passou a ser sua vida depois disso?
A Bíblia não traz tais respostas.
Alguns até especulam, com certa lógica, que se tratava de Saulo, que depois viera a ser Paulo.
Mas o cerne do que o Senhor me leva a refletir não é isso.
Pensemos por um instante na cena que se passou.
Malco, como se chamava (segundo o evangelho de João), era um encarregado do Sumo Sacerdote.
Certamente, tratava-se de uma pessoa de alta hierarquia dentro da estrutura da igreja daquela época, e, certamente, a maior autoridade judaica presente no Monte das Oliveiras naquele momento.
Se era servo do Sumo Sacerdote, certamente era um levita e almejava o sacerdócio.
Estava a frente de todos os demais que foram prender Jesus, caso contrário não seria o primeiro a ser atingido pela espada de Pedro.
Malco era uma pessoa que exercia, portanto, as vezes do próprio Sumo Sacerdote naquela situação.
Diante de Jesus, certamente ele estava numa posição de força e glória.
Enquanto que o Mestre estava com o corpo já abatido, pois chegou a suar sangue (Lc 22.44) enquanto orava naquela madrugada. Sua "agonia" era tamanha que Lucas afirma a necessidade de um anjo para confortá-lo.
O contraste entre Malco e Jesus era simplesmente absurdo de se imaginar.
O próprio Deus, Criador de tudo (Jo 1), Rei dos reis e Senhor dos senhores, diante de uma figura que ainda almejava o sacerdócio e se encontrava, agora, depois da orelha decepada, com todos os seus sonhos e aspirações frustrados. Sem uma orelha, jamais poderia nem mesmo entrar no santuário novamente.
Imagino o desespero daquele homem ao ver sua orelha no chão.
Certamente gritava de dor. Mas, pior do que isso, via sua vida ir por água abaixo, pois a Lei de Moisés é imperativa sobre a exigência da perfeição para o exercício do sacerdócio (Lv 21.17-23).
Sua vida ministerial tinha chegado ao fim diante do golpe.
Pedro é um tipo da igreja cristã, que nascia e feria com a espada, que é a Palavra de Deus, a religiosidade e a obediência a critérios ultrapassados para encontrar-se com Deus, tipificadas em Malco.
A passagem é um confronto claro entre a realidade daqueles que servem ao Senhor Jesus e aqueles que inventam leis e fábulas para usurpar a autoridade eclesiástica conferida pelo Criador, rejeitando a Salvação provida na cruz do Calvário.
É uma clara alusão à necessidade de colocarmos nossas armas e nossa própria vida a disposição do Senhor Jesus ao invés de obedecermos a mandamentos vazios.
Mas, a parte mais importante da reflexão não é essa!
Malco (a personificação de um sistema religioso falido e fadado à distância de Deus) viu sua vida acabar ali mesmo, quando Pedro (a igreja do Senhor Jesus) corta-lhe a orelha.
Estava certamente todo ensanguentado. Estava completamente destituído de sua suposta autoridade. Estava com sua vida encerrada e destinada à exclusão.
Mas o Senhor Jesus, pega sua orelha e recoloca no lugar.
O Senhor restaura-lhe a condição anterior.
Jesus lhe oferece mais uma oportunidade. O Mestre cura imediatamente sua orelha e restaura sua vida. Devolve-lhe a chance de continuar seu caminho. Poderia voltar e se apresentar ao Sumo Sacerdote novamente.
Como reagiu Malco?
Infelizmente, qualquer coisa que se possa dizer é mera especulação, pois a Palavra não registra.
De toda forma, não há como refutar o fato de que não foi mais a mesma pessoa.
Sua vida, a partir daquele momento sofre uma profunda transformação, pois o Senhor lhe tocou e restaurou-lhe a integridade física.
Trata-se, inclusive, da última cura física realizada por Jesus.
Deus curando Seu povo. Um retrato claro de que a última obra de Jesus foi a restauração do Israel de Deus. Um tipo daquilo que o Senhor vai fazer com os Judeus que não o aceitaram e o perseguiram.
O último milagre do Mestre foi a cura de um levita que havia perdido a condição de voltar a ministrar no Santuário.
Que visão tremenda!
Que milagre gigantesco!
Quanto amor e compaixão, num único gesto.
Malco ficou ali todo sujo de sangue ainda, provavelmente. Suas roupas estavam ainda com as marcas do sangue e sua cabeça devia estar girando.
Mas fora tocado pelo Mestre de todo o universo.
Não podemos afirmar o que ele passou a fazer dali em diante, mas estou certo de que sua vida não foi mais a mesma.
A passagem mostra ainda que o Senhor Jesus devolve a capacidade de ouvir àqueles que estão ensurdecidos pela religiosidade.
Deus, em Sua infinita misericórdia e bondade, nos mostra que não importa a condição que nos encontramos em relação a Ele. Não importa o que fizemos até o momento de estar diante dEle. Não importa a quais interesses estamos atendendo quando vamos até onde Ele está.
Nos cura, mesmo sendo perseguidores e contrários à sua Verdade.
Ele nos dá nova chance, independente daquilo a que estamos nos dedicando.
Jesus nos recupera a integridade, mesmo que sejamos enviados por ordens de autoridades que foram espiritualmente desautorizadas.
Que a cura de Malco nos faça compreender que o que Jesus quer e faz é uma restauração completa dos nossos sonhos, projetos e desejos, mesmo quando nosso encontro com Ele não seja para adorá-lo.
Muitas vezes chegamos diante do Senhor por força das circunstâncias, mas nem temos a noção exata de que estamos representando um sistema contrário à sua vontade.
Acontece muitas vezes de nos encontrarmos com Ele para criticar ou perseguir seus servos e nos deparamos com incompreensão e violência contra nossa integridade.
Mas Ele não leva nada disso em conta, pois sua obra de restauração vai além de um milagre físico.
Diante do Rei, nossa vida muda de direção. Diante do Senhor nossa cura é instantânea e profunda.
O Senhor Jesus nos abençoe com esse toque maravilhoso! E tenhamos nossos sonhos restaurados e possamos entender Seus planos e desejos.
Que o Senhor nos leve a um encontro com sua pessoa e recebamos a cura diretamente das Suas mãos, ainda que a igreja nos trate de forma inadequada. Ainda que a espada corte algum pedaço do nosso corpo. Ainda que estejamos diante de uma situação que nos diga que é o "fim da linha".
Que o toque de Deus nos faça olhar para Jesus como aquele que nos cura e nos traz para uma vida nova e livre.
É a minha oração a você que leu esta reflexão.
Que o Senhor nos abençoe com toda a sorte de bênçãos. Em nome de Jesus, amém!
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